Delegado se passou por comerciante judeu |
|
|
|
| Seg, 01 de Fevereiro de 2010 16:49 |
|
SÃO PAULO Ele dizia não falar português e estava sempre vestindo um quipá. Passava-se por judeu de origem suíça, dono de navios de soja que também transportavam toneladas de cocaína para o exterior. Para completar, os serviços seriam pagos com dinheiro vivo. Segundo o americano Pierre Delannoy, foi esse o disfarce usado pelo delegado do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), Robert Leon Carrel, para convencê-lo a pilotar o avião com droga para Itu (SP), mercadoria que depois seguiria para o Porto de Santos. A atuação dos policiais transcorreu sem conhecimento da Polícia Civil de São Paulo. A equipe chefiada por Carrel também não tinha autorização judicial para se infiltrar na quadrilha, pré-requisito obrigatório nesse tipo de apuração. Delannoy conta que o primeiro contato do grupo ocorreu por intermédio de um amigo de origem árabe. Depois de ouvir a proposta do delegado disfarçado, o americano iniciou contatos com parceiros colombianos para fornecer a droga ao grupo. Os colombianos, traficantes experientes, quiseram primeiro encontrar pessoalmente os compradores antes de fechar negócio. "Eles logo perceberam que era polícia e pularam fora. Eu quis sair, mas eles insistiram, arrumaram outros fornecedores e eu estava querendo o dinheiro", conta Delannoy. Em um dos encontros, em uma casa alugada em Praia Grande, no litoral paulista, o suposto empresário chegou a mostrar uma mala com milhares de dólares, em uma tentativa de demonstrar que a negociação era garantida. A primeira negociação, segundo Delannoy, envolvia 450 quilos de cocaína e R$ 1,3 milhão. Problemas ocorreram na transação e a quantia acabou caindo para os 300 kg que, também segundo Delannoy, chegaram a Itu. "Eu admito que fiz o crime (de tráfico de drogas), mas fui induzido a praticá-lo. Embalei pessoalmente dez pacotes de 30 kg de cocaína. Depois da apreensão da polícia, restaram cinco pacotes de 20 kg", afirma o piloto americano. VERSÃO OFICIAL A operação policial em Itu foi enaltecida pelo então diretor do Denarc, Ivaney Cayres de Souza. "Esta é uma das maiores investigações já produzidas pelo Denarc", declarou Souza em nota oficial distribuída pelo Denarc no dia da apreensão. O texto assinalava: "A droga ainda não foi pesada por peritos do IC (Instituto de Criminalística), mas estima-se que o peso seja de aproximadamente 200 kg". No auto de apreensão da droga, no entanto, constaram apenas 98 kg. Foi por causa dessa diferença que o Ministério Público Estadual (MPE) decidiu reabrir o caso. Na denúncia (acusação formal à Justiça), promotores afirmam: "Agindo como se estivessem legalmente infiltrados, (os policiais) adquiriram, num espaço de nove meses, paulatinamente a confiança dos criminosos, para convencê-los a trazer cocaína colombiana pura para aquisição". Quando foi preso, em junho de 2008, Carrel ocupava a chefia da Divisão de Licenciamentos do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Vagner Bertoli DELEGADOS.com.br Portal Nacional dos Delegados Revista da Defesa Social |



